quarta-feira, 29 de abril de 2009

Encontros e Desencontros

Talvez fosse melhor eu ser seu amigo
Andar pela praia sem vontade de te beijar
Sentar ao seu lado sem ter que lhe pegar nas mãos
Mas eu nunca quis ser seu amigo, nem me comparar aos seus
Você confia mais neles, diz que os ama, sai com mais freqüência
Quem sabe se eu fosse seu amigo poderia então estar mais perto de você
Confiasse mais em mim, dissesse que me ama e me chamaria para sair mais.

Talvez então fosse melhor eu ser seu inimigo
Ter-lhe raiva e desprezo, sem vontade de te olhar
Nem passaria perto de ti, andaria desconfiado e falaria mal
Mas seria tão difícil ser seu inimigo, não mais ver os castanhos dos olhos teus
Quem sabe seria melhor eu estar errado de meus sentimentos e não mais te amar
Acordar no meio da noite e nem chorar porque me enganou, porque fora a mentira
Assim eu me amaria mais, olharia mais pra mim.

Talvez tivesse sido melhor nem ter-lhe conhecido
Não ter saído aquele dia para dançar e nem esbarrado em ti
Ter recusado a noite, ter vivido a minha própria noite em mim
Mas hoje eu não estaria sentindo nada, porque amar é sentir tudo
Quem sabe a dor não se somaria ao que sinto por ti e hoje aqui não teria graça
Eu não lembraria do que fizemos ontem, do beijo de hoje e dos planos de amanhã
Assim não veria graça em sair e molhar-me na chuva.


Talvez seja melhor eu conhecer-lhe mais
Sem pressa e no acaso. Na rua ou em qualquer lugar
Abraçar sem esperar teu abraço de volta, um cheiro na nuca
Ter ciúmes apenas do começo, confiar nos teus beijos e sussurros
Sair pra dançar naquele mesmo lugar e dizer que foi ali o sabor de hoje
Mas pra saber se ainda nos amamos, deixemos acabar o hoje e veja-me amanhã
Quem sabe eu lhe espere com vontade de namorar, ou com vontade de apenas beijar.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Insanidade

Daqui não vejo nada, posto que estou frigido, esbranquiçado, com um nó me partindo o meio do corpo. Talvez seja raiva, ou talvez eu nem saiba explicar o que é. Não posso nem tomar um copo de água, nem de cachaça e nem de nada. Somente da espera, da esperança ou desesperança. Tudo aqui é de uma cor só. Os gritos abafam-se e morrem nas paredes frias, não há tacos no chão nem buracos de fuga. O vento faz inveja lá fora, nem sei bem como é lá fora. Música, só a que eu canto. Susto, de mim mesmo. Dor, quando me bato. Sorriso, se uma formiga me faz cócegas a noite. Nem sei de onde ela vem. Choro se lembrar-me do amor. Mas que amor há aqui? Até mesmo por mim já não sinto mais nada. Nem zelo nem nada. Ficarei por estas bandas esperando morrer não sei de que, pois a velhice não sei quando vem, esqueci de quanto tempo estou vivendo, e nem sei mais o que é vida. A minha é essa aqui, só não sei bem explicar. Nem sei bem como é uma casa. Corbusier disse-me que casa é uma máquina de morar, aqui é centrífuga, não é nenhuma arte, só as que desenho na parede. Faço terrores e amores. Colagens de letras de revistas, palavras cruzadas me atormentavam antes de dormir. Mas já não há mais isso aqui. As paredes estão tomadas de letras, erros ortográficos, palavrões e desenhos. Porque da vida sei desenhar. Mas é difícil falar.
Soube que os políticos estão se lançando para as próximas eleições de presidente. O carisma de Lula não conseguiu eleger tantos prefeitos para a estrela que está pifando no lado esquerdo do céu de mísseis. Que a dona Dilma está já se maquiando para seus longos discursos e caricias às câmeras de tv. Queria vê-la de papo com o Obama, vê-la peitar os problemas deste chão, pisar nas terras inférteis, sustentar a economia. Ao menos isso vazou para cá. Também não estou só no silêncio. Até mesmo os tatus conseguem roer a terra, os defuntos comerem as raízes, assim eu também posso rir e chorar dos desesperos que cultivam o País. Essas notícias são uma crescente embriaguez, mesmo sem colocar uma gota de álcool na boca. Por isso o presidente bebe caramba. Mas eu não vou renunciar a nada, nem a mim. Eu quero é estar assim. Aqui mesmo. Já me conformei, estou como grande parte dos brasileiros, conformado. É como o homem que beija a mulher meia noite e ainda a deseja bom trabalho, quando o tonto está sendo chifrado.

Ela diz: Amor vou trabalhar, hoje minha escala no hospital é até amanhã cedo.
Ele responde com um beijinho: Claro meu amor, bom trabalho!

E faz cara de sono.

Mas que imbecilidade. Assim vem acontecendo na política. As pessoas parecem não ver a capoeira que vem arrastando poeira pelo terreiro. As mulheres gritaram tanto que está aí a candidata do milênio. Será que também merece Romanée-conti, pois em 2002 brindaram aquilo que já se previa. As estrelas estão pingando do céu e mesmo assim ainda caem sentadas no palanque. Já perdi as contas de quantos petardos nosso digníssimo retirante disse, sei que já passaram de 13. É este é o número deles, 13. Por isso eu não quero mais dar opinião em nada. Aqui dentro fico rabiscando o Brasil. O dia que me deixarem sair daqui vou parecer o cão que tem medo da rua. Um pato com frio. Viver neste lugar é sombrio. Cabem vários corpos juntos ao meu, mas não colocam com medo de dar briga. Que nem as que acontecem aí fora. Passei esse texto por debaixo da frestinha que há na porta, quase que não coube a folha. Mas ela passou e riscou o chão. Agora vou terminar de reconstruir Guernica, faltam algumas casinhas. O dia que me tirarem daqui eu a coloco no chão. Deixe-me neste hospício, grudado nas telas brancas do som que não propaga, no eco que não se espalha, da visão que não vai longe e do barulho que sussurra muito baixo. Estou melhor neste hospício do que no sanatório ai de fora.

Uma dose de nós

Pra que eu possa lhe dizer do que sinto aqui dentro tome uma dose de mim
Pra que sintas o que eu sinto toque-me a deriva do vento que poupa-se na janela
Aqui algo vem dizer-me de ti, de um adormecer em teus braços

Não posso dizer isso - que é um amor
Mas já posso chamar-lhe de amor
O tempo não mostra nada a ninguém
Nós é que mostramos ao tempo esse alguém

E pra que possa entender aquilo que digo
Tome uma dose de mim
Beba incessantemente
Sugue-me, se achas que é amor
Assim estou, amando porque bebi uma dose de ti

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A um amor cibernético

Ao acordar os olhos falavam mais que a boca, já gozavam lágrimas, uma e outra que acendera em volta de minha face embriagada. Os riscos da pele eram crateras imensas que secavam as gotas agridoces incandescentes e saudosas dos olhos. Vinha-me uma voz seguida de ar quente dizer bom dia, as gotas flamejantes embaçavam estas mãos que tocavam-me o rosto e beijava-me paulatinamente. Não era nada e nem ninguém, apenas eu no delírio catastrófico da solidão. Assim devem sentir-se àqueles que amam e sentem mais ausência do que amor. Um cigarro não bastaria para secar-me os lábios à vontade de um beijo molhado, não me acalmaria uma ânsia louca de ter meu amor, com doses de uísque. Não me sentiria fértil nem mesmo embalsamado por conhaque e regado a orgias. Mas assim foi a cama o esteio de tamanha impaciência, o lençol arremessado ao chão, o travesseiro deixara de apoiar a cabeça para calar-me os dentes que rangiam furiosamente, a roupa suava e evaporava, uma estima extasiada tomava-me como se realmente suas mãos deliravam em meu corpo. Mas nada era verdade. Apenas a cama só, eu só, nós só.
Hoje a chuva cai tão forte que faz doer as pétalas de flores, daqui da janela vejo uma insistente florzinha rosa equilibrar-se no galho, porém gotas não medem suas forças e a empurra incessantemente. O vento empurra a água que corre no chão, leva consigo as folhas que choraram das árvores, os telhados pingam, cachorros latem e correm da água que vem do céu. Vão pessoas correndo, roupas ensopadas e cabelos compactados. Chove tanto que nem ouço o palpitar do meu coração, chove tanto que nem mais ouço os latidos dos cachorros, chove tanto que já não há mais ninguém na rua e de tanto que chove não mais vejo a florzinha rosa presa ao galho. Tão cinza está o céu, agitado ficou o mar que bate à beira da estrada, as orquídeas bebem a água que escorre pelo tronco das árvores e provavelmente os sabiás e bem-te-vis não sentarão aqui em minha janela para conversarmos. Ainda há uma certeza que me faz pedir para que cesse esta chuvarada, meu amor não virá calar os raios, não me dirá bom dia e nem correrá no molhado comigo. Sairei, portanto só, pisando nas poças e sujando o branco do tênis, nem ligarei se os carros passarem e molharem-me todo, que mais pesado de lágrima está meu coração. Eu queria mesmo é que aquele sono viesse pesar-me os olhos, voltar, quem sabe, à mentira do amor que realmente não passara jamais de um sonho, beijar-me e acariciar-me com as próprias mãos pensando que um amor tocara-me como paixão e sabor, que sua língua sugara a inocência que sempre aguardou para morrer no prazer, mas já basta a virtualidade deste romance, agora não posso permitir o amor só no sonho, há um amor carnal e que possa tocar-me e olhar-me, sei que há.